: Diz-se de criança irrequieta e traquina, que não está quieta um só momento.

Wednesday, December 16, 2009

o mês em que o carnaval chega primeiro



Me perdoem os falsos, mas sinceridade é fundamental.
Quase tudo nessa época me soa como um filme mexicano, com atores bem ruins. Eu, (in)felizmente não tenho dotes para atuar nesse longa.
É um tal de comprar lojas inteiras, sofrer retaliações se não for às 5698569 festinhas de fim de ano, participar do amigo secreto do prédio, da família, da Associação dos Protetores dos Animais de Rua, dos "ex-amigos-de-infância", se empanturrar de perus, panetones e toda sorte de comida que você se privou de comer em 2009 inteiro e, pra mim, o pior: ter de amar a tudo e a todos do dia pra noite.
Como num conto de fadas, num estalar da varinha, o porteiro que você odeia agora é seu amigo, você se sensibiliza com o cara que mora numa carroça na sua rua há anos, aquela figura bem chata passa a ser legalzinha, você até aceita ir num bar que tem torre de chope e pedir uma calabresa, porque, afinal, é Natal.
Você não vai ao dentista, oras, é dezembro. Adia também a briga com a mulher, a prestação já atrasada, a dor de barriga, a insatisfação no trabalho.
Como diz Sérgio Mello, é muita gente tentando trazer fevereiro pra dezembro.
Sim, estarei com a minha família no dia 24, mas tudo que vem junto não é excessivo, fake demais?
Eu acho.....
Pessoas-que-estão-longe-da-família viram criminosas. Não dar presente é sinônimo de pão-durice. Quem não entra no clima da "festa que não tem hora pra acabar" não tem coração.
Eu tenho e olha que o meu é bem grande. Mas aqui não cabem sentimentos adulterados.
Minha tolerância, rebelde, não aceita mão de tinta.
Quem convive comigo, quem me conhece mesmo, não precisa que eu vire a Madre Teresa de Calcutá amanhã pra ter certeza do meu amor.
Feliz Natal, queridos, e um 2010 bem sincero pra todos.

*ilustra por Leo Bastos

Thursday, November 26, 2009

me desculpem os outros



Outro dia coloquei o seguinte nick no MSN: "na bubuia".
Perguntas e mais perguntas. E eu explicando...é tipo na correnteza, boiando, sabe, tipo, vamos levando....
E depois de tanto ser questionada, parei pra pensar um pouco melhor. Porque nos últimos dias, principalmente, a última coisa que tenho feito é levar na bubuia.
No seguinte sentido: tenho selecionado com tanto cuidado os lugares, pessoas, chateações e afins, que, pelo menos nesse momento, tô bem longe de estar na correnteza.
Ocorre que tendo esse comportamento, estou, muitas vezes, decepcionando algumas pessoas, frustrando expectativas.
Entendo isso, criei isso numa fase em que eu estava, literalmente, na bubuia. Eram muitas coisas, muitas pessoas, o tempo todo.
Era agradar daqui, comparecer ali, botecar acolá, era sem parar.
E aí comecei a perceber que não tava mais sendo tão legal assim esse frenesi. Será que eu queria mesmo ir a tal bar ou ao samba de não-sei-que-lá ?
Não, não queria não. E aí deixei de ir.
Ficou doente, casou, tá maluca ? Não, nada disso.
Só pensando no que eu, de fato, estava com vontade. Me desculpem os outros.
E é bom que se diga que não é nada radical: continuo bebendo com amigos, cozinhando em casa para queridos, jantando com quem não fico sem, rindo um bocado, continuo.
Tô me respeitando como nunca, fazendo o que quero mesmo fazer, estando com quem quero mesmo estar.
Se ontem era um milhão, hoje são 20.
Claro, isso não é uma profecia. A gente muda, a vida muda a gente.
Não tem certo nem errado. Tem uma busca incansável por caminhos pra ser mais feliz, pra ter mais orgulho das escolhas que fizemos e até das decepções causadas involuntariamente.
Sinceramente, me desculpem os outros.

*ilustra por Dri Stolfi

Monday, November 02, 2009

sobre como cair nas próprias arapucas ou limpe a gaiola


Um ano na casa nova comemorado ontem, primeiro dia de novembro.
E aí foi um domingo estranho. Sim, feliz pela data, pelo meu canto, mas um domingo de muito choro, de um bocado de coisa que_eu achava_, estava enterrada e que veio à tona. Purgante, como diz Gui Bracco.
Em Leite Derramado, Chico escreve que tá tudo ali, na memória. Como um escritório bagunçado que o dono, depois de fuçar um pouco, acaba encontrando o que procura. O que não pode, ele continua, é alguém de fora se meter, como uma empregada que tira o pó do escritório. Ontem acho que tirei o restinho de pó.
Um ano.
A gente vai pintando em cima da tinta descascada, disfarça bem, mas quando chove a camada de baixo aparece. Então não adianta camuflar. O ideal é tirar toda a tinta velha, remover, limpar e passar uma nova, fresca, para que não existam tantas marcas. Porque um dia desbota e aí você tá ferrado.
Dá trabalho na hora, mas depois você fica tranquilo por um bom tempo. Caso contrário, você economiza no momento, mas depois os restos vêm te cobrar. Eles sempre vêm.
Acho que foi mais ou menos isso o fim de domingo.
Tá tudo certo, eu tô feliz (e, de fato, estou), mas alguma coisa que eu tinha colocado no quartinho dos fundos da minha memória decidiu ir pra sala e infernizar a anfitriã.
Conseguiu.
Uma certa angústia travada no peito sem saber muito bem o motivo, uma vontade de me desculpar por algumas coisas, de dizer palavras que não disse na hora. E tasca mais uma mãozinha de tinta.
Acordei hoje aliviada, tenho do meu lado uma pessoa incrível, isso traz um certo conforto.
Mas vim trabalhar repensando como e onde armazeno minhas lembranças, minhas dores, meus calos, minhas histórias.
Eu preciso ter mais cuidado na hora de guardar tudo isso. Não posso ir entulhando na despensa, porque um dia, como ontem, a sujeira transborda.
É adequado fazer uma bela triagem na cabecinha, tirar a tinta velha pra não se desgastar mais depois, tentando reformar.
Porque, novamente como escreve Chico, a memória é uma vasta ferida.
Tenhamos, então, respeito por ela.

*ilustra por Pedro Lucena

Friday, October 09, 2009

as cinzas de quarta



Dormindo num colchão embaixo da mesa da sala do cunhado, procurando incansavelmente apartamento, descobrindo qual ônibus pegar. Emprego novo, amigos novos, problemas novos.
Foi assim quando cheguei.
Faz alguns anos já que estou em São Paulo e gosto um bocado dessa cidade. Um belo bocado, eu diria.
Tanto que vou bem pouco pra Sanja, quase não sinto falta.
Parece que sempre fui daqui, de lugar nenhum.
Me viro super bem....adoro fazer algumas coisas sozinha, gosto desse anonimato, dessa coisa frenética, das diferenças. Acho adequado.
De descer a Consolação como se fosse um barco que segue a correnteza, de pegar o Elevado só pra ficar reparando nos prédios decadentes e imaginar como era aquilo, de descer a pé até a Roosevelt observando o detalhe da placa da padaria dos travecos, de subir a Augusta pra comprar um disco no Neto. Gosto daqui.
E quase não percebo o que muita gente fala, que é essa coisa gigante que te esmaga, o egoísmo, cidade cinza, é muito perigoso, ninguém liga pra ninguém. Hummmm.
Acho que, assim como em outras situações, a gente vê o que quer ver. Nesse caso, penso que é bastante divertido pedalar no Elevado domingo, ver as estreias mais incríveis do cinema, experimentar restaurantes bacanas...
Mas, para que eu não me estenda nisso (já que poderia ficar horas citando o que me agrada), a questão é que anteontem fiquei em casa, de cama. Não estava passando bem.
E me deu uma sensação tão ruim, uma solidão tão ameaçadora. De estar sozinha aqui nessa bagunça toda.
Acho que queria alguém que me fizesse um chá, me colocasse um cobertor nas pernas, fizesse uma sopa ou ao menos me perguntasse, excessivamente, como costumam fazer as mães, se eu estava melhor.
Sim, amigos ligaram. Sim, aquilo não era uma crise de labirintite. Sim, sei que posso contar com pessoas mais que queridas aqui, mas não era isso.
Acho que era o silêncio recorrente do dia, a chuva que veio pra coroar, o chá feito por mim mesma. Minha mãe há mais de 100 quilômetros.
Gustavo me diz que sou romântica e, sinceramente, acho que ele tem razão.
Não nesse sentido gasto que atribuem à palavra, de casamento, de frufru, do pra sempre, de chiliques, da utopia e todo o blábláblá. Não, pra isso não tenho paciência.
Mas no sentido das coisas doces mesmo.
De pessoas sensíveis, do cuidado, do detalhe do dia-a-dia.
E talvez eu _essa menina que adora a cidade grande_, ainda não tenha reparado que às vezes é mesmo difícil peneirar tudo isso ali, cruzando a Paulista.

*ilustra por CTT

Wednesday, September 16, 2009

sobre reinventar-se

31 anos.
Ainda é estranho pra mim essa coisa da idade nova. Não pela questão de envelhecer e todo o blábláblá que vem junto, mas porque isso não muda muita coisa pra mim. Ah, sim, tirando o aumento do número de cremes usados diariamente. De resto, tudo parece igual.
Igual ao diferente que vem sendo nesses últimos meses.
É porque hoje de manhã me dei conta de que esse aniversário representou muito mais que entrar pros 31.
Marca um ano de muitas mudanças na minha vida.
Me separei de uma pessoa bastante especial, me mudei de casa, criei de novo meu espaço.
Adaptações, novas descobertas.
E na esteira disso, as consequências...
Deixei de amar, amei de novo, experimentei ficar só, conheci pessoas incríveis, me desapontei, aprendi a equilibrar sozinha o aluguel, a carregar as compras do supermercado, a encarar o silêncio do quarto, a fazer receitas novas, a relevar, relevar, relevar, ihhh, como diria Tom (Jobim), tanta coisa...
Aprendi um bocado. Pra mim parece que foi muito mais que um ano.
Motivo em dobro pra comemorar.
De sentir um puta orgulho da minha casa, dos amigos novos, dos de sempre, dos amores novos, dos de sempre, das alegrias novas, das de sempre.
De olhar o joelho esfolado e saber que consegui me levantar, mesmo que a marca continue ali. Mesmo que a tristeza venha forte às vezes, que a vontade nem sempre seja correspondida, que as lembranças não sejam tão agradáveis em alguns momentos.
E a ficha de tudo isso caiu só hoje, às 8h50, enquanto eu assoprava o chocolate quente, sentada na minha poltrona.
Uma pessoa nova, sim, mas não por fazer 31 anos e sim pelos rumos, alterados constantemente. Porque, como escreve o Chico (Buarque, não o Fireman), tem coisas que não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Acho que as mudanças são assim pra mim.
Mas tem algo que não se altera nesses anos todos: minha vontade, como já me disse Arthur, de abraçar o mundo com meus braços de adulta.
E que venha mais um ano.

*imagem de Dolls, de Takeshi Kitano

Thursday, August 20, 2009

se nada mais der certo

Eu sempre falo pro Celso, um amigo aqui da TV: se eu fosse menos curiosa, sofreria menos.
Explico. Esse tanto de coisa que venho lendo ao longo desses 30 anos, as músicas descobertas, os filmes assistidos (alguns várias vezes), a busca por respostas (mesmo que nunca chegue a elas), tudo isso é a procura por algo que tape esse buraco aqui no peito, que existe desde sempre.
Penso que se não fosse tão curiosa pela vida, tudo seria mais fácil. Uma alienaçãozinha até que não faria mal. Poderia, assim como muitas meninas (?) da minha idade, estar casada, com filhos, trabalhando das oito às cinco, indo para a praia em janeiro, fazendo um sexo burocrático, guardando uma grana para trocar o carro e é isso. Mas pra mim as coisas são bem mais complicadas.
Anteontem fui ver "Se Nada Mais Der Certo". Saí passada do cinema (como já havia me adiantado, sabiamente, Chico Fireman).
São personagens que pensam um pouco como eu. Sempre procurando (mesmo sem saber muito o quê), perguntando, descobrindo. E sempre achando que ainda há muito escondido.
Não seria mais fácil algo meio automático ? Esse pacote que citei acima não é sinônimo de felicidade para quase todo mundo "normal" ?
Freud diz que "a felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz".
É assim que eu sigo, é assim que seguem os personagens do filme que vi.
Não vão aceitando assim, goela abaixo, qualquer conceito vendido por quilo.
Ir por essa via não é fácil. Você abre a ferida, chega na carne e continua cutucando.
Assumir essa crueza, essa natureza, tem consequências, como em toda escolha que se faz.
No filme todos acabam bem fudidos. E tristes.
Tento manobrar os resultados dessa curiosidade toda, dos bichos que surgem dessas expedições, mas nem sempre consigo. Às vezes o volante escorrega...
Felicidade pra mim, infelizmente, não é o comercial da margarina.
Espero não acabar fudida. Triste eu já sou, de quando em vez.
Como diz Léo no filme, ninguém é normal, só que algumas pessoas disfarçam melhor.
Não sou personagem de cinema, mas, como eu insisto com Celso, se eu fosse menos curiosa, acho que sofreria menos.
Ele retruca: você não aguentaria não ser isso. E aí eu tenho de concordar. O jeito, então, é tomar um gole d'água pra ajudar a digerir a coisa toda.
*ilustra por Arthur D'Araujo

Friday, July 31, 2009

prenez soin de vous

Não coloquei o nariz pra fora de casa nos últimos dias.
Além de muito trabalho (o que não vem a ser exatamente uma novidade), uma vontade absurda do não-contato com gente me fez ficar bem quietinha.
Ontem, por exemplo, três "eventos". Recusei todos. Cheguei em casa e fui cozinhar, feliz da vida.
Aí o Fabrício, ao me perguntar a programação da quinta e ter como resposta: casa, se espantou.
"Achei que você não tinha isso, que era sempre muita gente, muita festa".
Disse a ele que não acredito em ninguém que é 100% alguma coisa.
100% triste, 100% bonito, 100% feliz. Balela.
E ainda comentei com Fabrício que o Marcelo, amigo carioca, havia feito um comentário parecido, dia desses.
Ele me disse que ficava feliz em saber que eu tinha um lado calmo, porque eu sempre estava em alta velocidade e tal.
Respondi a ele que uma coisa não exclui a outra. Eu posso ser tranquila numa hora e agitada na outra. Eu posso sair todos os dias numa semana e na outra ter alergia a lugares com mais de 3 pessoas.
Eu não sou uma obra encerrada, finalizada.
Como diz Lévi-Strauss, cada um de nós é uma espécie de encruzilhada onde acontecem coisas.
O mais importante, que venho aprendendo com o tempo, é respeitar essas mudanças, jogar no time delas.
Aprender a recusar 3 convites num mesmo dia, se o estado de espírito pede sossego. Ou sair sozinha de casa à uma da manhã pra ouvir música e beber. Respeitar o momento.
Pensando nisso, lembrei de uma ocasião em que (não me recordo agora quem foi, até porque isso é bem recorrente, infelizmente) me disseram: ah, você é moderna, independente e ainda faz serviço de casa ?
Rótulos.
Moderna ? Independente ? Serviço de casa ?
Dependo de tanta coisa e de tanta gente....
E, sim, adoro cozinhar, não me incomodo em lavar louça, me agrada a casa sempre arrumada, com flores.
Porque o "ainda" ? Não posso ter meu trabalho e ser dona-de-casa ao mesmo tempo ?
Não posso achar incrível fazer uma comida pro namorado e sair da TV às 2 da manhã, numa boa ?
Posso, sim.
E, ontem, sozinha com meus discos, sentindo o cheiro da cebola fritando na manteiga, colocando roupa pra lavar, me senti satisfeita. Por ter escolhido o que me traria tranquilidade nessa noite.
Claro, depois da doce labuta, me enfurnei no Tolstói (valeu, Alfredo).
Sem rótulos. Acho adequado.

*ilustra por bia_ia